Celíacos, ostra feliz não faz pérola

Duda Pedro*

 

Era o dia do macarrão. Eu que sabia exatamente os sabores e texturas de massas, pães e bolos feitos com farinha de trigo agora tinha encontrado uma causa para tantas dores e incômodos: “glúten, quanta crueldade comigo!”

O que eu não sabia é que até ali eu estava sobrevivendo e que a partir daquele momento, eu passaria a viver.


Com muita força de vontade, fui encontrando caminhos para aprender a conviver com a doença celíaca. O primeiro passo foi enxergá-la não como doença, mas como uma possibilidade para uma nova vida. Vieram os novos sabores, novas texturas, o amor colocado no ato de cozinhar, além da vontade de adquirir conhecimento sobre o meu diagnóstico. Nessa nova realidade, conheci pessoas e vivi situações que me ajudaram a ser um ser humano melhor. Tudo mudou, dentro e fora de mim. Aprendi a dar mais valor as frutas, verduras e legumes e a escutar meu corpo, principalmente as minhas dores, afinal onde há dor há algo para ser escutado. Conheci um mundo além da farinha de trigo. E como ele é rico...cheio de sabores, cores e aromas!

Mas então ser celíaca é a melhor coisa do mundo?

 

As dificuldades existem e sempre vão existir, sendo celíaco ou não. O que muda é o olhar que temos sobre elas. Mesmo que não queiramos, é certo de que passaremos por mudanças na nossa vida. E já que elas vão acontecer, que sejam para nos tornarem melhores, não é? A calma e a paciência foram os ingredientes mais necessários para aprender a como ser feliz mesmo tendo uma alimentação restrita.

 

Rubem Alves, meu escritor preferido, nos presenteou com uma grande lição, “Ostra feliz não faz pérola”. Acalmei meu coração quando me deparei com esse texto e pude entender o significado dele. Deveria ser leitura obrigatória para todos os celíacos. Quando mantemos a calma, não perdemos o equilíbrio, que é fundamental para que comecemos a buscar alternativas. Sob estresse e desespero, isso não é possível. Com o tempo, histórias de vida vão se juntando a nossa própria, deixando a certeza de que não estamos sozinhos no mundo. Muitas outras pessoas também passam pelos mesmos problemas, senão, mais difíceis.

Aceitação e compreensão do diagnóstico também foram fundamentais. Quando compreendemos e aceitamos que determinados fatos não conseguimos mudar, passamos a ficar mais serenos buscando mudar não a situação mas a forma como a encaramos. Sabe aquela conversa com a vida? “Ok! Já entendi que não posso voltar no tempo ou deixar de ser celíaca. Então o que eu posso fazer, daqui pra frente, para que eu viva mais feliz?”

Embora muitos ainda não estejam certos disso, a vida responde. Basta estarmos atentos aos sinais que ela dá. As respostas podem estar nos conselhos de um amigo querido, em uma pessoa desconhecida que nos solicita ajuda, nas situações vivenciadas “por acaso”, nas dúvidas que nos surgem à cabeça ou no coração e até mesmo em uma dificuldade que devemos atravessar. Por isso, ler, estudar, perguntar e trocar experiências são fontes de conhecimento que podem trazer benefícios. E se estiver pesado e difícil, a melhor saída é não ficar sozinho, abra o coração e procure ajuda, converse com os amigos e a família, busque grupos de apoio; existem tantos nas redes sociais, por exemplo.

E o mais importante de tudo: devemos ser felizes, manter um sorriso no rosto, esperança de que tudo dará certo e confiança no que estamos fazendo. Com certeza, muitas outras pessoas se espelharão em você para lidar com um situação difícil. Muito melhor se pudermos ser um exemplo positivo, não é?


Ninguém está na Terra para ser infeliz. Todos nós estamos aqui para aprendermos e sermos muito felizes. 


Já pensou que o seu diagnóstico pode ser uma oportunidade para transformar não só a sua vida como a de outras pessoas também?

Maria Eduarda A. Pedro - Celíaca

Psicóloga e Mestre em Psicologia pela USP-Ribeirão Preto

www.espacoinfantile.com.br

Instagram: @espaco_infantile

ruben_alves.png