O QUE MINHA PET ME ENSINOU SOBRE AUTOAMOR

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Liliane Farias*


Adotei a Cacau em dezembro do ano passado, mais precisamente dia 26, um dia depois do natal. Ela foi sem dúvidas o melhor presente que eu pude ganhar, e de lá para cá estamos juntas descobrindo os desafios do dia a dia. Ela foi resgatada da rua e eu nunca tive um pet sob minha tutela, como resultado temos duas mocinhas aprendendo na prática como educar uma à outra.


Quem tem pet sabe que eles são as coisinhas mais gostosas do mundo e que é muito difícil dizer não, eu mesma me derretia e morria de pena quando eu ia comer e Cacau ficava me olhando, eu tinha tanta pena que quando não comia escondido, fazia algo para ela comer comigo, logo eu, que ando tentando me encaixar na vida e que não tenho tido uma alimentação com horários regrados. Como resultado da minha vontade de mimá-la e agradá-la, Cacau começou a apresentar sobrepeso e como o organismo dos cães é super sensível, um alerta foi acionado para as possíveis comorbidades que isso poderia trazer.


Na tentativa de reverter a situação, iniciei com ajuda uma alimentação natural, sim, minha cachorra comia porções muito bem elaboradas e devidamente pesadas, de acordo com as necessidades dela, isso exigia que eu dedicasse tempo para preparar, pesar e montar marmitas para alimentá-la de forma correta, sem tanto sódio, sem processados e claro, sem glúten.


Em um dia de cansaço extremo olhei para minha Cacau comendo feliz suas porções de proteína, carboidratos, vegetais, vísceras e suplementos enquanto eu comia pipoca com coca no almoço, logo pensei “essa cachorra come melhor que eu”, mas por dentro eu estava feliz por poder cuidar de forma correta da coisa que eu mais amo no mundo inteiro. Junto a alimentação vieram os inúmeros NÃOs que eu tive que dizer sempre que eu ia comer e ela me olhava com a cara mais fofinha querendo um pouco. Às vezes me doía, mas eu sempre pensava “eu te amo tanto que eu vou te negar isso, eu prefiro que seja dolorido o não de agora, do que perdê-la e sofrer mais depois”, nesse momento um clique se acendeu no meu cérebro e eu finalmente entendi o lance do auto amor.


Por um tempo, achei que autoamor era se olhar no espelho e repetir palavras de encorajamento, era dizer a mim mesma que eu sou perfeita como sou e que não preciso mudar para me encaixar nos padrões, mas na verdade é um processo tão profundo que não pode ficar à margem de palavras, é preciso mergulhar em atitudes.


Então olhei para mim mais uma vez comendo coisas horríveis em horários inadequados e percebi que eu não me amava o suficiente para dizer não as minhas vontades mesmo sabendo que me fariam mal depois, porque eu queria me sentir bem agora. Entendi que autoamor não é sobre se mimar e apenas repetir mantras para autoestima, é negar a si tudo que te fará mal, mesmo que você queira muito. Isso pode ser uma alimentação ruim, um "date" ruim regado a cerveja, um relacionamento tóxico onde ser celíaca é motivo de culpa, as pequenas contaminações cruzadas as quais me submetia conscientemente, e até aquele grupo de amigos que na verdade fazem você se sentir mal na própria pele.


Dizer não a si é o maior ato de amor possível, e talvez seja o mais difícil. Tenho tentado praticar isso da melhor forma possível e, confesso que minha alimentação ainda é ruim, é difícil se livrar de maus hábitos que surgem de necessidades emocionais, é um processo complexo ao qual tenho me submetido por me amar e sei que valerá a pena.


Por isso espero que esse texto traga reflexão a você que não quer sair de uma relação para não sofrer mesmo sabendo que já sofre muito, dizer não a algo que você quer, mas que te machuca aos poucos é a melhor forma de provar a si mesme sua força, é escolher chorar um mês para sorrir de novo e respirar de alivio em todos os outros.


Negar a si a vontade do glúten, as companhias que te fazem sentir mal por algo que não é culpa sua, os antigos sabores e memórias que a comida trás, é a forma mais corajosa de se amar, é fazer por si o que faria por alguém que ama e a quem não quer ver sofrendo diariamente mesmo que te aperte o coração.


Quando tiver dúvida se está dando a si o amor que merece, pense no que faria ou diria se fosse seu filho ou alguém que ama na mesma situação, você não permitira que seu filho usasse drogas, fosse humilhado pelo namorado, comesse glúten sendo celíaco ou se contaminasse para ser aceito, é preciso cuidar da sua criança interna, diga não a ela toda vez que ela fizer birra querendo brincar com as facas afiadas da gaveta da cozinha, salvar a ela, é salvar a si mesmo! 

* Liliane Farias é celíaca e criadora de conteúdo no Instagram:

   Perfil pessoal @oiceliaca 

   Perfil profissional @estudiolilla